Poemas de Paulo Leminski

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1.

Contranarciso

em mim
eu vejo
o outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente centenas

o outro
que há em mim é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

1.

Contranarciso

en mí
veo al otro
y a otro
y a otro
en fin decenas
trenes que pasan
vagones llenos de gente
centenas

el otro
que hay en mí
eres tú

y tú

así como
estoy en ti
estoy en él
en nosotros
y sólo cuando
estamos en nosotros
estamos en paz
aunque estemos solos

2.

(Poema do livro Toda Poesia)

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

2.

(Poema del libro Toda Poesia)

un buen poema
lleva años
cinco jugando futbol
más cinco estudiando sánscrito,
seis cargando piedras,
nueve de novio con la vecina
siete de puros golpes
cuatro andando solo
tres mudándose de ciudad,
diez cambiando de tema,
una eternidad, tú y yo,
caminando juntos

3.

(do livro Toda Poesia)

uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais

3.

(del libro Toda Poesia)

una carta una brasa a través
por dentro del texto
nube llena de la lluvia mía
cruza el desierto por mí
la montaña camina
el mar entre los dos
una sílaba un sollozo
un sí un no un ay
señales diciéndonos
cuando no estamos más

4.

administério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

4.

adiminimisterio

Cuando el misterio llegue,
me va a encontrar durmiendo,
mitad dando al sábado,
la otra mitad, domingo.
No haya son ni silencio,
cuando el misterio aumente.
Silencio es cosa sin sentido,
no dejo de observar.
Misterio, algo que pienso,
más tiempo, menos lugar.
Cuando el misterio vuelva,
mi sueño esté tan suelto,
ni haya susto en el mundo
que me pueda sustentar.
Media noche, libro abierto.
Mariposas y mosquitos
se posan en el incierto texto.
¿Sería el blanco de la hoja
luz que parece objeto?
¿Quién sabe el olor del negro,
que cae allí como un resto?
¿O será que los insectos
descubrieron parentesco
con las letras del alfabeto?

5.

iceberg

Uma poesia ártica,
claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.

5.

iceberg

Una poesía ártica,
claro, es eso que yo deseo.
Una práctica pálida,
tres versos de hielo.
Una frase-superficie
donde vida-frase alguna
no sea más posible.
Frase, no. Ninguna.
Una lira nula,
reducida al puro mínimo,
un pestañear del espíritu,
la única cosa única.
Pero hablo. Y, al hablar, provoco
nubes de equívocos
(¿o un enjambre de monólogos?).
Sí, invierno, estamos vivos.

6.

dança da chuva

senhorita chuva
me concede a honra
desta contradança
e vamos sair
por esses campos
ao som desta chuva
que cai sobre o teclado

6.

danza de la lluvia

señorita lluvia
me concede la honra
de esta contradanza
y vamos a salir
por esos campos
al son de esta lluvia
que cae sobre el teclado

7.

(do livro Toda Poesia)

não fosse isso e era menos
não fosse tanto e era quase

7.

(del libro Toda Poesía)

não fosse isso e era menos
não fosse tanto e era quase

8.

(do livro Toda Poesia)

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

8.

(del libro Toda Poesia)

objeto
de mi más desesperado deseo
no sea aquello
por quien ardo y no veo
sea la estrella que me besa
oriente que me rija
azul amor belleza
haga cualquier cosa
pero por el amor de dios
o de nosotros dos
sea

9.

o velho leon e natália em coyoacán

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

9.

el viejo leon y natália en coyoacán

esta vez no habrá nieve como en petrogrado aquel día
el cielo va a estar limpio y el sol brillando
vos durmiendo y yo soñando
ni sacos ni cosacos como en petrogrado aquel día
apenas vos desnuda y yo como nací
yo durmiendo y vos soñando
no van a haber más multitudes como en petrogrado
[aquel día
silencio nuestros dos murmullos azules
yo y vos durmiendo y soñando
nunca va a haber un día como en petrogrado aquel día
nada como un día yendo tras de otro llegando
vos y yo soñando y durmiendo

10.

aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?

10.

aviso a los náufragos

Esta página, por ejemplo
no nació para ser leída.
Nació para ser pálida,
un mero plagio de la Ilíada,
alguna cosa que cala,
hoja que vuelve a la rama,
mucho después de caída.
Nació para ser playa,
quién sabe Andrómeda, Antártida,
Himalaya, sílaba sentida,
nació para ser última
la que no nació todavía.
Palabras traídas de lejos
por las aguas del Nilo,
un día, esta página, papiro,
va tener que ser traducida,
para el símbolo, para el sánscrito,
para todos los dialectos de la India,
va tener que decir buen día
a lo que sólo se dice al pie del olvido,
va tener que ser la piedra brusca
donde alguien dejó caer el vidrio.
¿No es así que es la vida?

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