Poemas de Ferreira Gullar

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1.

Maio 1964

Na leiteria a tarde se reparte
Em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.

Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo esta tarde
nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
Se simplesmente saio do lugar
ou se morro
se me matam.

Estou aqui e não estarei, um dia,
em parte alguma.
Que importa, pois?
A luta comum me acende o sangue
e me bate no peito
como o coice de uma lembrança.

1.

Mayo 1964

En la lechería la tarde se reparte
en yogurts, cuajadas, vasos
de leche,
y en el espejo mi rostro. Son
las cuatro de la tarde, en mayo.

Tengo 33 años y una gastritis. Amo
la vida
que está llena de niños, de flores
y mujeres, la vida,
este derecho de estar en el mundo,
tener dos pies y manos, una cara
y hambre de todo, la esperanza.

Ese derecho de todos
que ningñún acta
institucional o constitucional
puede suprimir o legar.

¡Pero cuántos amigos presos!
cuántos en cárceles oscuras
donde la tarde hiede a orina y terror.
Hay muchas familias sin rumbo esta tarde,
en los suburbios de hierro y gas,
donde juega abandonada la infancia de la clase obrera.

Aquí estoy. El espejo
no guardará la marca de este rostro,
si simplemente salgo del lugar,
o si muero
o me matan.

Estoy aquí y no estaré, un día,
en ninguna parte.
¿Y qué importa?
La lucha común me enciende la sangre
y me golpea el pecho
como la patada de un recuerdo.

2.

Nós, latino-americanos

Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.

Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo berço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

2.

Nosotros, latino-americanos

Somos todos hermanos
pero no porque tengamos
la misma madre y el mismo padre:
tenemos el mismo parecido
que nos traiciona.

Somos todos hermanos
no porque compartamos
el mismo techo y la misma mesa:
compartimos la misma espada
sobre nuestra cabeza.

Somos todos hermanos
no porque tengamos
el mismo brazo, el mismo apellido:
tenemos un mismo trayecto
de rabia y hambre.

Somos todos hermanos
no porque portemos la misma sangre:
que en el cuerpo llevamos:
Lo que nos une es el modo
como la derramamos.

3.

Homem sentado

Neste divã recostado
à tarde
num canto do sistema solar
em Buenos Aires
(os intestinos dobrados
dentro da barriga, as pernas
sob o corpo)
vejo pelo janelão da sala
parte da cidade:
Estou aqui
apoiado apenas em mim mesmo
neste meu corpo magro, mistura
de nervos e ossos
vivendo
à temperatura de 36 graus e meio
lembrando plantas verdes
que já morreram.

3.

Hombre sentado

En este diván recostado
a la tarde
en un rincón del sistema solar
en Buenos Aires
(los intestinos doblados
dentro del vientre, las piernas
bajo el cuerpo)
veo por el ventanal de la sala
parte de la ciudad:
Estoy aquí
apoyado apenas en mi cuerpo delgado, mezcla
de nervios y huesos
viviendo
a una temperatura de 36 grados y medio
recordando las plantas verdes
que ya murieron.

4.

Off price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado


e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

4.

Off price

Que la suerte me libre del mercado
y que me deje
seguir haciendo (sin saberlo)
libre de esquemas
mi poema
inesperado

y que pueda
cada vez más desaprender
de pensar lo pensado
y así poder
reinventar lo cierto por lo errado

5.

Perplexidades

a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

5.

Perplejidades

la parte más efímera
de mí
es esta consciencia de que existo
y que todo el existir consiste en esto.
¡resulta extraño!
y más extraño
todavía
es saberlo
y comprender que esta consciencia dura menos
que un pelo de mi cabeza
pero más extraño aún
que saberlo
es que
mientras ella dure me ha sido dado
el universo infinito constelado
de cuatrillones y cuatrillones de estrellas
aunque sólo unas pocas de ellas
puedo ver
fulgurando en el presente desde el pasado

6.

Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos

desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país

6.

Subversiva

La poesía
cuando llega
no respeta nada.

Ni padre ni madre.
Cuando ella llega
de cualquiera de sus abismos

desconoce al Estado y a la Sociedad Civil
infringe el Código de Aguas
relincha
como puta
nueva
enfrente del Palacio de la Alvorada.

Y sólo después
reflexiona: besa
los ojos de quienes ganan poco
mece en el regazo
a quienes tienen sed de felicidad
y de justicia

Y promete incendiar al país

7.

Falemos Alto

Falemos alto. Os peixes ignoram as estações e nadam.
Nós caminhamos entre as árvores. Quando é verão, os druidas,
curvados, recolhem as ervas novas.
Falemos alto,
os milagres são poucos.
As águas refletem os cabelos, as blusas dos viajantes.
Os risos, claros, detrás do ar. Os pássaros
voam em silêncio.

Não te posso dizer: “vamos” — senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,
a alegria debaixo das palavras.

7.

Hablemos Alto

Hablemos alto. Los peces ignoran las estaciones y nadan.
Nosotros caminamos entre los árboles. Cuando
es verano, los druidas,
curvados, recogen las hierbas nuevas.
Hablemos alto,
los milagros son pocos.
Las aguas reflejan los cabellos, las blusas de los viajeros.
Las risas, claras, detrás del aire. Los pájaros
vuelan en silencio.

No te puedo decir: «vamos» — sino por aquí.
La infancia dentro de la luz de un musgo que los insectos
comen con su boca.
Escucho el mar; respiro, camino por el follaje.
Miramos límpidos en el misterio de las aguas
escondidas!,
la alegría debajo de las palabras.

8.

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.

Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“Não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

8.

No hay sitio

El precio de las judías
no cabe en el poema. El precio
del arroz
no cabe en el poema.

No caben en el poema el gas
la luz el teléfono
la falta
de leche
de carne
de azúcar
de pan.

El funcionario público
no cabe en el poema
con su salario de hambre
su vida encerrada
en archivos.

Como no cabe en el poema
el obrero
que frota su día de acero
y carbón
en los talleres oscuros

— porque el poema, señores, está
cerrado
«No hay vacantes».

Sólo cabe en el poema
el hombre sin estómago
la mujer de nubes
la fruta sin precio.

El poema, señores,
no hiede
ni huele

9.

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
– será arte?

9.

Traducirse

Una parte de mí
es todo el mundo:
otra parte es nadie:
fondo sin fondo.

Una parte de mí
es multitud:
otra parte extrañeza
y soledad.

Una parte de mí
pesa, pondera:
otra parte
delira.

Una parte de mí
almuerza y cena:
otra parte
se espanta.

Una parte de mí
es permanente:
otra parte
se sabe efímera.

Una parte de mí
es sólo vértigo:
otra parte,
lenguaje.

Traducir una parte
en la otra parte
-que es una cuestión
de vida o muerte-
–¿será arte?”

10.

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão…
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos
um artefato,
um poema,
uma bandeira.

10.

Agosto 1964

Entre tiendas de flores y zapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
en un autobús Estrada de Ferro-Leblon.
Vuelvo del trabajo, en medio de la noche,
cansado de mentiras.
El autobús traquetea. Adiós, Rimbaud,
relojes de liláceas, concretismo,
neoconcretismo, ficciones juveniles, adiós,
que la vida
la compro en efectivo a los dueños del mundo.
Con el peso de los impuestos un verso sofoca,
la poesía ahora responde el interrogatorio
policial-militar.
Digo adiós a la ilusión…
Pero no al mundo. Pero no a la vida,
mi reducto y mi reino.
Del salario injusto,
del castigo injusto,
de la humillación, de la tortura,
del terror,
nos reservamos algo y con ello construimos
un artefacto,
un poema,
una bandera.

11.

O Bêbado e a Equilibrista

Caía A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco
Louco
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

11.

El Borracho y la Equilibrista

Caía
La tarde como si fuese un viaducto
Y un borracho trajeado de luto
Me recordò a Carlitos
La luna,
Como la dueña del burdel
Pedía a cada fría estrella
Un brillo de alquiler
Las nubes
Allà en el secatintas del cielo Chupaban manchas torturadas
Qué agobio loco
El borracho de bombín
Hacia mil irreverencias
A la noche de Brasil…
Que sueña,
Con el regreso del hermano de Henfil
Con tanta gente
Que tuvo que partir escopetada
Llora…
Nuestra gentil madre patria
Lloran Marias y Clarisses
En suelo de Brasil
Pero sé,
Que un dolor tan punzante
No será en vano
La esperanza baila
En la cuerda floja con sombrilla
Y en cada paso en esa línea
Puede acabar maltrecha
¡Mala suerte!
La esperanza equilibrista
Sabe que el show de todo artista
Debe continuar…

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