Poemas de Cecilia Meireles

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1.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

1.

Motivo

Yo canto porque existe el instante
y mi vida no está completa.
No soy alegre ni infausto Desgraciado, infeliz :
Soy poeta.
Hermano de las cosas huidizas Que suele huir o tiene tendencia a huir ,
no siento júbilo ni tormento
Por noches y días transito,
en el viento
Si desmorono o si edifico
Si permanezco o me deshago,
– no lo sé, no lo sé. No sé si me quedo
o si paso.
Sé que canto. Y la canción lo es todo.
Hay sangre eterna en el ala acompasada.
Y un día sé que estaré mudo:
– nada más.

2.

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e meu navio chegue ao fundo
e meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

2.

Canción

Puse un sueño en un navío,
y el navío sobre el mar;
abrí el mar con mis dos manos
y lo hice naufragar.

Tengo las manos mojadas
de azul y olas entreabiertas;
color fluye de mis dedos
tiñe arenas desiertas.

El viento vino de lejos,
la noche, curva de frío;
bajo el agua va muriendo
mi sueño, y en su navío…

Lloraré lo necesario
para hacer la mar crecer,
el navío se irá al fondo,
sueño, a desaparecer…

Luego ya, todo perfecto:
playa lisa, lisas aguas.
Ojos secos como piedras,
y mis dos manos quebradas.

3.

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

– e um dia me acabarei.

3.

Timidez

Me basta un pequeño gesto,
hecho de lejos y leve,
para que vengas conmigo
y por siempre te lleve

– pero yo no lo haré.

Una palabra caída
de las montañas de los instantes
desmancha Quitar manchas todos los mares
y une las tierras más distantes…

– palabra que no diré.

Para que vos me adivines,
entre vientos taciturnos,
apago mis pensamientos,
uso atuendos nocturnos

– que amargamente inventé.

Y mientras no me descubrís,
los mundos van navegando,
en aires seguros del tiempo
hasta quién sabe cuándo…

– y un día me acabaré.

4.

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

4.

Reinvención

La vida sólo es posible
Reinventada.

Anda el sol por las campiñas
Y pasear la mano dorada
Por las aguas, por las hojas …

¡Ah! Todas las burbujas
Que vienen de fundas piscinas
De ilusionismo … – más nada.

Pero la vida, la vida, la vida,
La vida sólo es posible
Reinventada.

Viene la luna, viene, retira
Las esposas de mis brazos.
Diseño por espacios
Llenos de tu figura.
¡Todos mentiras! Mentira
De la luna, en la noche oscura.

No te encuentro, no te alcanzo …
Sólo en el tiempo equilibrado,
Desprendiéndome del balance
Que además del tiempo me lleva.

Sólo en la oscuridad,
Recibida y dada.

Porque la vida, la vida, la vida,
La vida sólo es posible
Reinventada.

5.

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão…

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…

5.

Canción de Otoño

Perdóname, hoja seca,
no puedo cuidar de ti.
Vine a amar en este mundo,
y hasta el amor perdí.
¿De qué sirvió tejer flores
en las arenas del suelo
si había gente durmiendo
sobre el propio corazón?

¡Y no pude levantarla!
Lloro por lo que no hice
y por esta flaqueza
es que soy triste e infeliz.
¡Perdóname, hoja seca!
Mis ojos sin fuerza están
velando y rogando por aquéllos
que no se levantarán…

Tú eres hoja de otoño
que vuela por el jardín.
Te dejo mi nostalgia
-la mejor parte de mí.
Y voy por este camino,
segura de lo inútil que es todo.
Que todo es menos que el viento,
menos que las hojas del suelo…

6.

Vigília

Como o companheiro é morto,
todos juntos morreremos
um pouco.

O valor de nossas lágrimas
sobre quem perdeu a vida
não é nada.

Amá-lo, nesta tristeza,
é suspiro numa selva
imensa.

Por fidelidade reta
ao companheiro perdido,
que nos resta?

Deixar-nos morrer um pouco
por aquele que hoje vemos
todo morto.

6.

Vigilia

Como el compañero es muerto,
Todos juntos morimos
un poco.

El valor de nuestras lágrimas
Sobre quién perdió la vida,
no es nada.

El amor, en esta tristeza,
Es suspiro en una selva
Es una buena idea.

Por fidelidad recta
Al compañero perdido,
Que nos queda?

Dejarnos morir un poco
Por aquel que hoy vemos
Todo muerto.

7.

Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

7.

Levedad

Leve es el pájaro:
Y su sombra volante,
Más ligera.

Y la cascada aérea,
De su garganta,
Más ligera.

Y lo que recuerda, oyéndose
Deslizar su canto,
Más ligera.

Y el deseo rápido
De este antiguo instante,
Más ligera.

Y la fuga invisible
Del amargo pasante,
Más ligera.

8.

Metal Rosicler, 9

Falou-me o afiador de pianos, esse
que mansamente escuta cada nota
e olha para os bemóis e sustenidos
ouvindo e vendo coisa mais remota.
E estão livres de engano os seus ouvidos
e suas mãos que em cada acorde acordam
os sons felizes de viverem juntos.

“Meu interesse é de desinteresse:
pois música e instrumento não confundo,
que afinador apenas sou, do piano,
a letra da linguagem desse mundo
que me eleva a conviva sobre-humano.
Oh! que Física nova nesse plano
Para outro ouvido, sobre outros assuntos…”

8.

Metal Rosicler, 9

Me habló el afinador Persona que tiene por oficio afinar pianos u otros instrumentos musicales de pianos, ese
Que escucha cuidadosamente cada nota
Y mira para los bemoles Dicho de una nota: De entonación un semitono más baja que la de su sonido natural y sostenidos
Oyendo y viendo algo más remoto.
Y están libres de engaño sus oídos
Y sus manos que en cada acorde despiertan
Los sonidos felices de vivir juntos.

“Mi interés es de desinterés:
Porque música e instrumento no confundo,
Que el afinador apenas soy, del piano,
La letra del lenguaje de este mundo
Que me eleva la conviva sobrehumana.
¡Oh! Que física nueva en ese plano
Para otro oído, sobre otros asuntos…”

9.

Canção Excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.

9.

Canción Excéntrica

Ando en busca de espacio
Para dibujar la vida.
En números me parece,
Pierdo siempre la medida.
Si pienso encontrar salida,
En vez de abrir un compás,
En un abrazo,
En despedida tenaz,

Si vuelvo sobre mi paso,
Todo lejos y fugaz.

Y mi corazón de acero,
Ya sintiendo ya el cansancio
De esta búsqueda de espacio
Para dibujar la vida.

Hoy, exhausta y descrita,
No me animo a un breve trazo:
– sano de lo que en el hago,
– de lo que hago, arrepentida.

10.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
A minha face?

10.

Retrato

No tenía este rostro de hoy,
Así que, tan triste, tan delgado,
Ni estos ojos tan vacíos,
Ni el labio amargo.

No tenía estas manos sin fuerza,
Tan paradas y frías y muertas;
No tenía este corazón
Que no se muestra.

No he dado por este cambio,
Tan simple, tan segura, tan fácil:
– En qué espejo se perdió
Mi cara?

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